Várias histórias - WICHITA
1.
Aqui está uma passagem de um texto escrito por um amigo meu -
« São terríveis as circunstâncias e é terrível esse mundo interior que faz com que apenas os pensamentos, opiniões e juízos de valor que não são nossos, possam transpirar para o mundo exterior. Mais ainda quando julgamos ter tirado férias desse eu que nos repugna, desse eu que vive em sociedade e cujas falas embaraçosas foram já repetidas, nas cabeças de todos aqueles que as ouviram, pelo menos uma vez e no máximo infinitas vezes. »
Há uns meses passeava com ele pela sua cidade natal. Recordo-me tê-lo questionado excessivamente sobre o seu passado, com uma forte curiosidade provocada pela sua atitude habitualmente reservada perante este tema. Estávamos a andar por estas ruas que me eram estranhas, e eu via no olhar dele, em cada esquina que ele reconhecia, memórias a perturbarem-lhe o passeio. Pensei que a presença de alguém ausente do seu passado, que não tivesse visto ou ouvido de outros olhos e bocas as coisas de que ele tanto foge, possibilitasse um diálogo. Mas, infelizmente, ele não estava com humor para confissões.
Quando atravessámos por mais uma dessas esquinas, eu percebi na aceleração nervosa do seu passo que não era ele que as via, mas elas que o viam a ele. A aceleração do passo revelava apenas a sua tentativa em esconder-se destes olhares do passado, mas com pouco êxito, porque estava lá eu, impossibilitando que ele pudesse simplesmente fugir a correr. Tinha que manter uma certa postura comigo, e foi isso que o revelou.
Ele não queria que eu (com quem já experienciou uma boa dose de momentos altos e baixos), ao me contando os pormenores da sua vida, tivesse razões para me metamorfosear em uma dessas esquinas que, pelas histórias que testemunhou ou que ouviu, se tornaram num lembrete eterno dos seus pecados. Esse seria o fim da nossa amizade. Comigo em forma de esquina, já não daria para avançar no nosso passeio.
Foi nesse momento que eu me lembrei de conversas antigas que já tínhamos tido sobre a impossibilidade de largar o passado, de construir um novo « eu ».
Um gesto inicial, como confessar-se ao seu próximo, que possa parecer vestir a farda da honestidade, acabará sempre por voltar por outras bocas de forma triturada, manipulada, repetida… impossibilitando o confessante de fazer aquilo que queremos todos fazer, que é seguir em frente.
Já nem seria o « boca a boca » local do bairro dele que o preocuparia. Agora que as pessoas conseguem comunicar por ondas invisíveis, de uma cidade à outra em um só instante, qualquer um com quem ele se cruzaria na rua, em Lisboa, ou em Istanbul, poderá saber os mais pequenos detalhes dos seus mais íntimos e vergonhosos segredos.
É, então, interessante vê-lo à procura de outras formas de honestidade, uma vez que a confissão se tornou demasiado pesada. Como quando estamos juntos na noite e encontramos desconhecidos na rua, e que falando de temas aparentemente longínquos (guerras, eleições, arte…), ele consiga sempre trazê-los, por um caminho que aparenta ser longo demais, àquilo que lhe perturba. Ou, nos seus textos, como aquele que expus acima, onde, falando de aspectos estéticos de um filme que nada tem a ver com ele, ele consiga fazer sentir ao leitor, pela escolha específica das coisas que quer abordar, e pela forma como as aborda, uma vontade para além daquilo que ele está diretamente a analisar.
Porque se existe alguma virtude nestas inutilidades que fazemos, como partilhar a nossa opinião sobre as revoluções do Irão, ou como escrever um texto sobre um filme que nada nos diz respeito, ou mesmo fazer um filme sobre assuntos que aos outros não dizem respeito, é porque serve ao menos para abrir uma brecha que dê a ver aquilo que nos mexe. Portanto, determinar aquilo que nos aproxima ou que nos afasta.
Mas, se, a isto que eu estou a dizer, continuam a acusar o meu réu de fugir às suas responsabilidades, permitam-me então de fugir às vossas acusações, para relatar acontecimentos que não aparentam estar muito relacionados -
2.
Cinco anos atrás, após um jantar de família em que a discussão revolveu em volta do cinema, por ser a área que eu tinha acabado de escolher para iniciar o meu percurso universitário, o meu pai, com uma certa vergonha alheia, tentou fazer-me perceber, por palavras mais gentis que estas, que eu deveria ficar mais calado. Pois, o meu pai, que é artista, sabia muito bem que as coisas incendiosas e ingénuas que eu estava a proclamar à sala de jantar, iriam, um dia, revoltar-se contra mim. Que, não valia a pena, aos 18 anos, estar a prender-me dentro de opiniões que ainda não conseguia defender. Mais valia ficar atento ao meu redor, ficar silencioso, e construir um pensamento. Fiquei ofendido.
Já na escola de cinema, após uma aula, o professor tirou-me para o lado e começou a dizer-me, com palavras parecidas às do meu pai, desta vez sem vergonha alheia porque não estava a falar de mim diretamente (eu tentava, ainda assim, seguir o conselho do meu pai o melhor que podia, mesmo que ofendido), que simplesmente mencionar o seu interesse por um filme não tinha relevância. Que quando isso acontece, e acontece muito, é apenas barulho. Imagens confusas que dão a ver algo que aparenta ser claro - do tipo, « pessoa x gosta do filme y » - mas é apenas barulho. Pois, uma pessoa pode ter as razões mais feias para gostar de um Ford, enquanto outra pode ter as razões mais belas para gostar de um episódio de Stranger Things, por mais improvável que isso pareça.
3.
Em Paris, fui ver uma exposição dedicada à obra de Georges de La Tour, que me tinham aconselhado. Mesmo que, por breves momentos, conseguia estar somente a fazer aquilo que esperava fazer, ou seja, apreciar os quadros que estavam à minha frente. Tive dificuldades em, ao longo da visita, ficar focado em apenas nisso. Não conseguia parar de observar os outros visitantes, e refletir sobre a razão de eu vir parar ao mesmo sítio que eles. Não só eram todos, com poucas exceções, consideravelmente mais idosos que eu, aumentando a minha insegurança em partilhar um interesse comum, mas a disposição da visita estava feita de tal modo que não conseguia escapar a esta distração. As salas eram pequenas, e os visitantes eram tantos, que era impossível não se roçar a um desconhecido tentando passar de um quadro ao outro.
Isto não me acontece quando vou ao cinema. Se calhar seja por causa da sala escura e do seu poder em fazerem aqueles que estão juntos numa atividade coletiva pensarem que estão sozinhos numa introspecção pessoal.
Também não me acontece quando vou ao Louvre, por exemplo, em que devido ao seu gigantismo, é possível que cada pessoa tenha o seu motivo único para vir visitar o museu - um quer ver as pinturas bíblicas pre-renascentistas; outro quer tirar uma fotografia à Joconde; outro pode ter vindo com o objetivo de recopiar um quadro de Delacroix; outro pode ter vindo para preparar um assalto às jóias imperiais francesas. Tantas pessoas no mesmo lugar, mas, de um certo modo, estamos todos sós e egoístas, à procura apenas daquilo que já sabemos que queremos ver.
Aqui, impossível. Não consegui abstrair-me. Na minha cabeça, os visitantes, incluindo eu, começaram a confundir-se com as personagens nas pinturas. E esta experiência, que eu esperava ser simples e direta, começou a tornar-se complexa e total. Não foram só os quadros que eu vi, mas os outros, eu próprio, o edifício, o curador, os seguranças, o preço do bilhete, a loja de recordações, os textos biográficos de La Tour, etc. E eu não só vi isso tudo como também cheirei, ouvi, saboreei, senti… Tudo converteu-se numa papa. Numa papa deliciosamente coerente.
Estava diante de um quadro retratando um trapaceiro num jogo de cartas, e vi ali, enquanto eu estava a ser roçado por outros visitantes, meus concorrentes, uma relação entre a minha vontade em ser visto a observar este quadro específico, que apenas eu podia entender, e a vontade do trapaceiro em ser visto por mim a trapacear. Trapacear como só ele conseguia.
4.
« Abraão, contudo, acreditava e acreditava para esta vida. Sim, tivesse a sua fé apenas residido no que está por vir, e ter-se-ia despojado de tudo mais facilmente para se precipitar para fora de um mundo a que não pertencia. Mas a fé de Abraão não era dessas, se é que haverá uma fé dessa espécie; pois que não é propriamente fé, mas sim a possibilidade mais remota de fé, que pressente o seu objecto no extremo limite do horizonte, embora dele esteja separada por um abismo devorador, no fundo do qual o desespero cruel dirige o seu jogo. » (Temor e Tremor, S. Kierkegaard)
Após recentemente ir a um concerto de música clássica, lembrei-me de questões que me perturbavam quando, jovem adolescente, ia ver concertos com a minha mãe. Não conseguia justificar na minha cabeça a obsessão em composições tão antigas. « Como assim, não conseguem inventar nada de novo? », « Não têm algum interesse por aquilo que anda a ser feito? », resmungava eu.
Materializou-se na minha cabeça nesta última vez que fui ver um concerto, que havia algo de inerentemente revolucionário no acto de persistir no estudo contínuo de um mesmo objeto. Como se estas partituras fixas fossem o terreno de jogo mais amplo que qualquer artista possa explorar.
Estava ali sentado, no meio de gente muito mais sofisticada que eu, e comecei a relembrar-me de todos os rituais que tanto me estranhavam quando era adolescente, e que todos os espectadores aparentavam conhecer de cor - as deixas para se sentarem, levantarem, calarem, aplaudirem, a duração dos aplausos - e, no momento em que o concerto ia começar, aparece o maestro. « Hurah! », gritam os espectadores. Uns segundos depois, aparece a cantora, vestida por um vestido coberto de jóias. « Hurah! Hurah! », gritam de novo, os espectadores, uma vez para a cantora, outra para as jóias, claro. E o espectáculo começa. « Que vida! », pensei eu. Como é possível? Como é que, durante mais de 300 anos, tempo de vida de algumas das composições tocadas nesse concerto, as pessoas guardaram este entusiasmo?
A cantora começou a cantar, e aquilo que eu pensava ser do passado, passou a ser eterno. Não para dizer que era muito bonito ou alguma fantochada do género. Mas, para mostrar que, dentro desta partitura, desta história comum, conhecida por todos, uma segunda história começava a desenvolver-se - aquela contada por todas as pequenas diferenças entre interpretações que nos vêm aos ouvidos, que ganham a maior relevância neste formato tão rígido. Nesse momento, as possibilidades de interpretações tornaram-se tão vastas quanto o número de cantoras, de músicos, de ouvintes no mundo.
5.
« Toda a obra de arte é filha do seu tempo, e o artista é, ele próprio, filho da sua época; por isso, é absurdo pretender que a arte ultrapasse o seu tempo ou que o artista possa escapar ao espírito da sua era. » (Lições sobre a Estética, G. W. F. Hegel)
Isto é uma qualidade que o cinema já partilhou com a música clássica. Tal como aquilo que o meu amigo tenta fazer com a sua história privada (já não tão privada), mas agora, numa escala maior, em relação à História. E isto ganha uma dimensão superior quando um filme consegue dar ao espectador o sentimento de que, como com os textos que o meu amigo escreve, a História também é escrita por alguém, não com o objetivo de pura honestidade, mas com outra vontade em mente (propaganda, educação, evangelização…). Vontade que será levada à luz pelas histórias escritas à volta da História. Ou seja, pela arte.
No western, género da História dos E.U.A., as suas próprias premissas, quase sempre as mesmas - estar no meio do deserto, aprender a montar a cavalo, aprender a usar uma arma, tentar criar segurança num lugar sem autoridade - são quase idênticas com as premissas de fazer um western. Aquilo que dita a narrativa num filme, e sobretudo num western, acaba por ser então, a produção. E as mudanças entre cada filme são tão poucas que, como na música clássica, não só tornam-se mais visíveis, como traduzem quase perfeitamente, as diferenças no processo de fabricação de cada filme, ou, as diferenças entre cada ponto de vista na matéria.
Quando estava a ver o Wichita, refleti sobre o quão parecido o Joel McCrea era com o John Wayne - a serenidade nas expressões, a feminidade nos gestos, a aura em frente a grupos - e fiquei a achar o quão inútil era, num mecanismo como o do western em que as escolhas de produção são aquilo que transgridem mais para a tela, haver dois atores deste calibre com o mesmo tipo de características. Não é como com as outras estrelas da mesma época - James Stewart, Cary Grant, Gary Cooper, Dana Andrews, Robert Ryan, Randolph Scott… Cada um tinha a sua qualidade particular.
Mas, como cada vez que vejo semelhanças em duas coisas, sou obrigado a ver as diferenças também, por mais subtis que sejam. Em primeiro, pensei nos mais famosos papeis do Joel McCrea - em Foreign Correspondent, onde faz de jornalista americano na Europa, em que a casa está onde a história o leva; em Stranger on Horseback, e mesmo agora, em Wichita, onde faz de homens da lei em que a casa está onde a moral os leva - e vi em quase todos os seus papeis, um homem com fortes convicções, demasiado fortes para permanecer em sociedade. Não que isso lhe incomode. Depois, com John Wayne assumi que fosse o mesmo. Sendo a maior estrela do western, a imagem que ele dá é a do cowboy típico - solitário, independente, sábio. Mas se formos pensar em papeis específicos, como em Red River, Rio Bravo, ou mesmo Donovan’s Reef, começamos a ver que, ao contrário de McCrea, Wayne viaja quase sempre com o objetivo de encontrar um lar (daí, ele ser o verdadeiro representante do western, e McCrea a contradição), o que voltou a dar, na minha cabeça, a legitimidade da coexistência destes dois atores.
Depois, apercebi-me como era insuficiente esta justificação que me tinha feito a mim próprio. Vi a facilidade que tive em convencer-me apenas para ficar tranquilo com algo que claramente ressenti como sendo contraditório. Apercebi-me que ainda não estava satisfeito, e tentei aprofundar. Pensei em mais papeis que ambos fizeram… Vieram-me aqueles que me chocaram à primeira vista. Veio-me, pensando no Wayne, o The Searchers, e como havia na expressão de Wayne um ódio que nunca tinha visto num outro filme dele. E percebi que o que eu estava a ver não podia ser explicado apenas por adjetivos demasiadamente utilizados para descrever aquilo que aparentam ser boas performances. Percebi que este choque era uma conjunção de tudo aquilo que se transpõe da produção de um filme para a tela. Do facto de porem um ator fora da sua zona de conforto, ou um personagem fora daquilo que ele pensa ser - neste caso, no papel de um retornado da Guerra Civil, que gostava da vida familiar, mas que tudo lhe foi tirado - como ao próprio ator foi-lhe tirado a possibilidade de interpretar aquilo que ele sempre interpretou - e que agora são obrigados, ambos o personagem e o ator, a descobrirem um mundo que nunca quiseram descobrir - a matarem, a desprezarem, a lamentarem um passado que já não existe. Puseram o Wayne a fazer um papel do McCrea. E deu em magia.
Veio-me também, pensando desta vez no McCrea, o The Great Man’s Lady, em que ele começa o filme por ser aquilo que todos esperamos que ele seja - um aventureiro. Mas ao longo do filme, acumulando as conquistas, e sentindo a necessidade de mantê-las - algo que o Joel McCrea habitual nunca se teria dado ao luxo de fazer - pouco a pouco, foi ficando cada vez mais preso ao chão e a si mesmo. E o cúmulo do ridículo desta contradição veio na parte final do filme, no seu reencontro com Barbara Stanwyck, que ele achava morta, e que como em frente a um espelho viu finalmente aquilo em que se tinha tornado, e agachou-se aos joelhos da sua antiga amada, misericordiosamente, lamentando « - Forgive me, Hannah, forgive me. I’ve failed you. I’ve always failed you. ». Obrigando Stanwyck, ainda apaixonada por aquilo que McCrea já alguma vez foi, a responder-lhe « - Oh my goodness, Ethan. Get off the ground. There are no Indians to stalk around here. », fazendo referência àquilo que outrora o faria agachar. Golpe final. Puseram o McCrea a fazer um papel do Wayne. E deu em magia.
Utilizando a célebre citação de Júlio Bressane: « Todo filme é o resultado estético do seu processo de produção. » (aqui « filme » poderia ser « texto »), adiciono que toda produção é o resultado material daquilo que nos lançou à aventura.

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