Como ver Filmes

A maneira certa de ver filmes é a maneira como eu vejo filmes, essa é a maneira menos complicada e que por certo dá mais ênfase aos filmes e menos à maneira de os ver, porque a maneira de ver filmes é algo do qual queremos estar o mais longe possível para podermos dedicar todo o nosso pensamento aos filmes em si. Uma pessoa é tentada a autoproclamar-se uma pessoa com uma certa maneira de ver filmes, mas o que essa pessoa devia fazer, caso fosse uma pessoa inteligente, era tornar-se um recipiente vazio, tornar-se um recipiente de fácil acesso, com uma forma simples, para que os filmes para dentro dessa pessoa, desse recipiente, fluíssem com a maior das facilidades. Assim a minha maneira de ver filmes é muito simples: arranjo um filme e vejo-o sem mais dificuldades. Não procuro por outros filmes, não sou indeciso, quero ver um determinado filme e vejo esse tal filme. Não tenho um disco onde guardo os meus filmes todos, não tenho um disco que de tempos a tempos passo em revista, não tenho um disco que me sirva de suporte contemplativo para a minha entediante ruminação na escolha dos filmes. Ontem o meu amigo enfureceu-se comigo por eu o ter repreendido fortemente relativamente ao seu disco. Este disco dele serve para guardar todos os filmes que ele não viu e todos os filmes que ele já viu, representando estes últimos uma singela minoria. Ora que espécie de maldita prepotência te corrói o miolo para assim julgares que consegues prever o futuro, perguntei-lhe, que tipo de magia macabra andas tu a praticar nas costas do mundo para assim concluíres que tens na mão uma bola de cristal que te permite adivinhar o teu gosto futuro, as tuas considerações estéticas para amanhã, disse eu. Ele retorquiu-me num tom amargo que esse disco lhe servia apenas para ter à disposição imediata os filmes que queria ver no presente e no futuro próximo, que esta era uma coleção provisória e que ele não tinha quaisquer aspirações de descortinar o futuro e que como tal, assim que mudasse de gosto, trataria de adquirir os filmes que nesse futuro indeciso lhe agradariam mais, as suas novas descobertas, pois que num dia desconhecemos um filme que no dia seguinte passa a ser o nosso melhor amigo. Então para que raio andaste tu feito escravo a compilar uma lista gigante de filmes que não conheces, disse eu, para que te familiarizaste com os nomes de filmes que nunca vão ser mais que teus conhecidos, filmes com os quais talvez só compartilhes um copo de vinho, disse eu, um copo de vinho que bebes com eles ao jantar uma vez, mas mais que isso nada, aliás, nem terias interesse em beber mais que um copo de vinho com eles, talvez até nem esse primeiro copo de vinho tenhas tido interesse em beber, mas fica mal deixar as coisas a meio e portanto bebeste o copo de vinho todo, na sua inteireza, e depois ficaste com o sabor a rolha na boca, pois nem suspeitavas que a garrafa de vinho tinha sido mal aberta e que no fundo do copo de vinho nadava um nojo, disse eu, não suspeitavas que esse último golo velava um gosto azedo que não era para o teu palato, que era talvez para o palato de um alce comedor de sapos, como desses que por aí andam, diz-me, disse eu, porque te entregaste a essa atividade hedionda de onanismo, essa atividade profundamente egoísta, que nem sequer colecionismo se pode chamar, pois até o colecionador tem uma vista desimpedida para os objetos da sua coleção, enquanto tu, meu amigo, vias esses objetos enclausurados por pastas, via-los fechados por sete consoantes seguidas que não pariam uma única vogal, nomes indecifráveis, nomes conspurcados pelo signo da obra prima, disse eu. Até a toupeira cega fica mais fascinada pelo brilho do ouro do que tu por esses nomes dos antigos mestres, que são só terríveis lembranças para ti, diz-me, disse eu, qual o miasma que te entorpece a vista e porque gozaste tanto desse tempo a sós no teu quarto, enquanto definhavas a olhos vistos a compilar os nomes desses antigos mestres, diz-me, disse eu, que não te apercebias, quando do teu escuro quarto saías, de toda a gente que te olhava com comiseração, a ti, pálido e sem vida, a cavalgar um cavalo que só de noite galopava, essa besta escanzelada e doente outrossim, e essas tuas coxas antes tão fortes, que agora nem apertar as esporas contra o dorso do animal conseguem, diz-me, disse eu, porque não olhaste antes pela janela, para veres como eu te chamava da rua para ires comigo passear, porque não  me viste a mim ali parado à tua espera, calejando os lábios de tanto repetir palavras cujo sopro se tornava progressivamente inaudível, como um sussurro à tua orelha distante - "Vem...vem comigo... vamos ver um filme...". Diz-me, disse eu, porque te vanglorias tu desse disco horrível, esconde-o antes, não deixes que ninguém veja o quão egoísta tu podes ser, não deixas que ninguém veja a medida da tua avareza, não deixes que ninguém veja nada, esconde-te no meu manto amigo, esconde-te que eu arranjar-te-ei os filmes, de dia para dia, nem que tenha de roubar e matar, ou pior ainda, trabalhar. Esconde essas coisas invisíveis que tens na mão, livra-te delas para sempre, isso seria o melhor. Fazer esse tipo de disco é só fazer uma mesquinha enumeração de coisas, e se achas que as pessoas se iriam calar quanto ao teu disco enganas-te, as pessoas iriam rir-se de ti e do teu disco, desse teu disco precioso que não é mais que uma piada para os outros, que não é mais que um pagode de galhofaria, esse teu disco, e, se achas que esse disco vale alguma coisa, desengana-te, esse disco não vale nada. Mas eu amo-te e por isso te digo isto, disse eu, livra-te do disco hoje, livra-te dele definitivamente, lança o disco pela janela, lança o disco da maior ponte que encontrares, lança o disco ao oceano, lança-o às chamas do inferno, porque se achas que esse teu disco tem algum valor, garanto-te, esse disco não vale nada, disse eu. Não te zangues comigo por te ter repreendido, diz talvez que sou mau, mas não julgues que eu gosto de ser cruel contigo, diz-me que sou mau porque sempre fui mau, tu o sabes, mas não digas que sou cruel, lembra-te que a maldade não tem na alma do mau essa pura e voluptuosa crueldade que te faz tanto mal imaginar. Diz-me que esta maldade te ajudou e depois perdoa-me para que voltemos a ser os melhores amigos, mas antes, livra-te desse disco, pois se achas que esse teu disco vale alguma coisa, não vale nada esse teu disco, disse eu.


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