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A mostrar mensagens de dezembro, 2025

Merlusse

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Quando Merlusse regressa para cumprir o seu último turno, já depois de ter comprado as prendas para as crianças, mas antes de as ter entregue, dá uma volta pelo dormitório e observa aqueles pobres diabos que se deitam para dormir. Pagnol começa a cena com Merlusse centrado contra uma parede branca e, à medida que este vai avançando para a frente, a câmara arrasta-se para trás, revelando na metade direita do quadro os miúdos nas suas camas, sendo estes progressivamente ultrapassados e deixados para trás. No final deste único plano, o mestre dá meia volta para inspecionar as camas da fila da esquerda e é aqui que Pagnol corta para um plano subjectivo de Merlusse. O plano picado percorre a fila de camas da parte esquerda do dormitório e no final dá meia volta para regressar à fila da direita. A câmara detém-se inesperadamente na conversa de duas crianças. Uma delas mostra uma faca à outra: “Olha para isto. Tenho-a guardada debaixo da almofada. Se ele tentar aterrorizar-me ou a qualquer ou...

Killer

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Не дай Бог жить в эпоху перемен - Que Deus nos livre de viver numa época de mudança                               

Conto de Inverno

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Félicie é uma esteticista e, como tal, trata daquilo que é belo. Os amantes que rejeita são aqueles que não reúnem as condições estéticas suficientes para que se possa dar o amor. A primeira cena do filme de Rohmer configura a imagem mental que ela tem desse belo a que aspira, desse paraíso perdido que é o zénite das aspirações estéticas desta mulher e que consiste, a pequena cena, em momentos aleatórios do verão que passou com Charles, o único homem que verdadeiramente amou e do qual tem uma filha. Tendo o casal sido separado por acidente e as perspectivas de um reencontro serem diminutas, Charles leva, cinco anos depois desse verão trágico, uma existência de fantasma no frio universo de Félicie e Elisa. Cinco anos depois de o sol se ter extinto e de ter tomado controlo o nevoeiro, Félicie desloca-se de casa para a paragem de autocarro, de uma linha do metro para outra, do mercado de inverno para o trabalho. Também antes Charles acompanhava Félicie da praia para o restaurante, do rest...

Férias

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São terríveis as circunstâncias e é terrível esse mundo interior que faz com que apenas os pensamentos, opiniões e juízos de valor que não são nossos, possam transpirar para o mundo exterior. Mais ainda quando julgamos ter tirado férias desse eu que nos repugna, desse eu que vive em sociedade e cujas falas embaraçosas foram já repetidas, nas cabeças de todos aqueles que as ouviram, pelo menos uma vez e no máximo infinitas vezes. Não é só terrível, é também deplorável quando julgamos encetar uma conversa com a nossa mãe na sala de estar ou no banco do jardim de nossa casa, mas encontramo-nos antes num grande salão por onde se passeiam todos os nossos conhecidos, com todas as suas conhecidas opiniões e, quando nos certificamos de que nos observam, não podemos senão tratar a nossa mãe com imerecido desprezo. Porquê? Talvez porque a crueldade complete muito naturalmente o tom de cerimónia.  Vemos filhos serem cruéis com as próprias mães, especialmente quando julgam estar a sós com elas...