Férias
Vemos filhos serem cruéis com as próprias mães, especialmente quando julgam estar a sós com elas (o cinema faz-se, talvez, quando se consegue fazer acreditar, filho e mãe, que se encontram finalmente a sós) e isso maravilha-nos e repugna-nos. Contudo, somos nós também cruéis com as nossas mães porque julgamos que estamos em sociedade com elas, mesmo quando estamos com elas a sós - o vírus da sociedade tomou posse no nosso corpo e alma. Antes, quando era ela a fazer-nos repreensões, educava-nos, e nós éramos inocentes e falávamos com a nossa mãe o melhor que sabíamos - era pura a nossa relação. Agora vingamo-nos dessa educação que nos faz repreendê-la, repreendendo-a. Uma vingança organizada por todos esses fantasmas, cujo espectro não tem necessariamente o seu correspondente carnal no mundo dos vivos, mas que continuamente se passeiam no salão mental pelo qual somos pensados e no qual incessantemente pensamos.
Há ainda outra espécie mais miserável de filho, aquele que o que quer que diga a pobre mãe, se sentirá como que arrastado sem querer e, como se quisesse fazer-lhe pagar caro a sua presença, refuta imediatamente, com uma contradita irónica, precisa, cruel, a asserção timidamente arriscada; a mãe adopta em seguida, sem por isso desarmar o filho, a opinião daquele ser superior que ela continuará a louvar para todos, na sua ausência, como se de um génio delicioso se tratasse, que no entanto não lhe poupa nenhum dos seus dardos mais acerados.
A nossa mais profunda falta consiste em esquecermo-nos que não precisamos de dizer nada à nossa mãe, que não precisamos sequer de articular um pensamento ou fazer-lhe ouvir as nossas opiniões. Não foi, afinal, sem dizer uma palavra, que a nossa relação teve o seu início? Toda a acusação que tecemos contra ela não passa de fraco argumento pejado de vãs palavras. Fazemos-lhe perguntas: Porque deixou de pintar? Porque já não se entrega a nenhuma atividade? Porque se quer mudar para a cidade, para um apartamento mal cheiroso, quando pode perfeitamente ficar na casa de campo onde sempre viveu? e quando a mãe não consegue já responder, perguntamos-lhe porque esteve a dormir o dia todo. A sua doce e terna resposta passa-nos ao lado, “eu não estava a dormir, estava só a descansar”. A asserção de que a vida flutua entre as várias ideias que fazemos da nossa mãe, pode não estar assim tão errada. A compreensão transforma-se em incompreensão, a alegria em irritabilidade, a afeição em raiva, a veneração em comiseração, e assim sucessivamente…
Desconsiderámos todas as ambições da nossa mãe, todos os sonhos, todas as pequenas vontades. Não a escutámos quando disse que já não queria viver no campo, não percebemos que vestia aquela casa como um colete de forças e que afundava os joelhos no meio do jardim como se fosse areia movediça; não reparámos que todas aquelas árvores tinham crescido porque tinham sido regadas. Pensando bem, nós próprios crescemos e, desde então, as árvores começaram a parecer muito mais pequenas, bem como todo aquele jardim cuidadosamente podado.
Contudo, talvez sempre nos reencontremos com a nossa mãe.
No final do filme a mãe da mãe está para morrer. Esta filha que já é avó pergunta timidamente à mãe se lhe pode pedir um favor. Depois da mãe pedir que ela continue, pede com um pouco mais confiança se lhe pode tirar uma fotografia. A mãe responde secamente “Não no meu vestido de noite”. A filha veste a blusa à mãe e tira-lhe uma fotografia no que viremos a saber, serão os últimos momentos de vida desta mãe. Resta saber quando serão reveladas estas imagens.
Estou convicto de que com o amor sucede o mesmo que com as fotografias. O que apanhamos da criatura amada não passa de um negativo. Revelamo-lo mais tarde, uma vez a sós, quando encontramos à nossa disposição essa câmara escura interior cuja entrada é proibida enquanto há pessoas à vista.
David
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