Turismo cinematográfico - MANAS
Seria errado não mencionar, logo desde o início, aquilo que pode parecer extra-cinematográfico ao espectador, para falar em seguida sobre aquilo que lhe parecerá cinematográfico, para no final perceber que essa distinção é, em vão, ilusória.
Se o nome da realizadora Mariana Brennand Fortes (ainda) não nos diz o suficiente para sabermos quais as suas tendências, os nomes que pairam sobre o filme são. Os mais conhecidos de entre eles, produtores executivos deste projeto, os irmãos Dardenne, Sean Penn, Walter Salles… Nomes que ideologicamente não nos surpreendem estarem ligados a um filme destes, mas que geograficamente não podiam ser mais longínquos (ademais, nenhum dos argumentistas, incluindo a realizadora, são do Pará, estado brasileiro em que este filme se situa). Outros nomes conhecidos começaram a aparecer posteriormente em apoio ao filme, entre eles, Julia Roberts que expressou publicamente o seu forte entusiasmo, e, um último, aquele que vos deveria surpreender mais, a empresa petroleira Vibra Energia, antiga subsidiária da gigantesca Petrobras, que assinou, juntamente com 70 outras empresas, uma carta aberta apelando para que o filme Manas seja a escolha brasileira para competir à nomeação do Óscar.
Será mais sensato suspender por agora este assunto « extra-cinematográfico » crescente, visto que mais longe não podemos ir com os poucos meios informativos que temos. Não alcançaremos nunca aquilo em que pensa realmente Sean Penn, ou aquilo que quer realmente a Vibra Energia, e para insistir neste assunto o único meio seria a especulação, e por mais evidente que tais especulações possam parecer, não se pode ceder a essa tentação.
Basta agora tentar perceber onde e como é que estas noções vão infetar, ou não, a matéria fílmica. Fiquemos, então, por aquilo ao qual temos um acesso total, este objeto que nos deixou Mariana Brennand Fortes, o nome em grande no póster, que é mais que suficiente para dar continuidade ao nosso pensamento.
Marcielle, personagem principal do filme, jovem rapariga de 13 anos que vive com a sua família numa pequena cabana na ilha Marajó, em plena Amazónia do Pará, entra na puberdade. Isto é-nos mostrado num dos primeiros momentos em que a vemos, escondida nas traseiras da cabana, a aproveitar um riacho para poder limpar as nódoas de menstruação das suas cuecas. Ainda no início do filme, vemos Marcielle, às escondidas novamente, no meio do mato, a criar o que parece ser um memorial dedicado à sua irmã mais velha, de quem ela não sabe o paradeiro, mas de que a sua mãe assegura, « está melhor que a gente, arranjou um homem bom. ».
Estes dois momentos paralelos representam a força que o filme poderá ter. De um lado, os factos aparentemente objetivos e frios de um corpo em desenvolvimento, aquilo que lhe dá um sentido de segurança sobre o que é crescer para o corpo de uma mulher, tal como o da sua ausente irmã, que ela tanto venera. Do outro, o fantasma dessa mesma irmã, que no início do filme é simbolicamente esperançoso, mas que se vai tornando, ao longo dos acontecimentos, em algo que mostrará violentamente, em conflito com a expectativa de entrar na idade adulta, a triste realidade pela qual a sua irmã passou, e pela qual Marcielle também há de passar. Neste caso, o abuso sexual do pai, que, como acabamos por perceber ao longo do filme, é a verdadeira razão ligada à fuga abrupta da irmã mais velha. Este fantasma, símbolo flutuante consoante as informações que Marcielle vai adquirindo, é uma ideia que vale a pena.
Mas onde esta proposta de utilizar o veiculo do fantasma da sua irmã para revelar a profundidade da puberdade de Marcielle é realmente promissora, o cenário em que a história foi inserida é apenas isso, um cenário substituível. E se calhar a intenção era essa - mostrar a universalidade destes temas contemporâneos. Viver a puberdade é, de facto, universal, mas a forma de vivê-lo não pode estar isolado daquilo que rodeia as pessoas filmadas. E o facto do filme ser escrito por pessoas estrangeiras ao clima paraense não pode ser justificação. Se esta distância entre os filmmakers e o cenário tivesse sido explicita desde início, poderia-se ter entrado no filme com olhos de quem quer descobrir o novo, certo, um olhar turístico, mas consciente. Agora, ao entrar no filme do ponto de vista de Marcielle, uma local, quando os filmmakers são de fora, nunca nos deixará ignorar essa incongruência formal. E por mais tempo de pesquisa que se possa fazer em preparação (10 anos neste caso, como foi muito mediatizado), nunca disfarçará o olhar de alguém que nunca se atreve a meter na vida do outro, resultando num olhar exótico, turístico, e perverso sobre uma realidade que para os locais é tudo menos esses adjetivos.
Podemos então perceber agora de onde é que apareceram esses famosos nomes como o Sean Penn ou a Julia Roberts. Não só pela ideologia (filmes progressistas há muitos), mas porque é um filme feito para eles, para turistas que estão apenas à espera de confirmarem os preconceitos que já tinham, sem realmente quererem viajar, e ficarem vulneráveis ao choque, à possibilidade de fazerem parte do problema, ao « estarem errados ». E quem, afinal, desejaria mais do que ninguém que os progressistas ficassem distraídos pelo reconforto de acharem que têm razão? Não seria muito arriscado dizer alguém como a Vibra Energia.
W. Benjamin: « (…) a tendência política, por mais revolucionária que pareça, tem uma função contra-revolucionária, enquanto o escritor sentir a sua solidariedade com o proletariado unicamente no plano da sua ideologia, e não como produtor. »

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