Cada vez que pensamos um no outro
É a cena em que Rita Portugal, a protagonista interpretada por Paula Guedes, após se despedir do seu namorado que vai partir para a guerra do ultramar, começa a correr para longe dele, para longe do padrão dos descobrimentos, no que é um plano de duração quase imensurável, até que chega aos braços de alguém que é presumivelmente o seu pai. É claro que antes desta imagem aparece o seu contexto - tudo isto acontece dentro de um programa de televisão, e Rita diz a Chico (Fernando Heitor) que não se consegue ver a si própria na televisão pois aparentemente tem vergonha do seu papel, que julga medíocre. No entanto, para nós, a corrida de Rita parece tão ou mais real e comovente quanto mais acreditamos que esta é a corrida de alguém para quem o fim chegou, para quem a espera do inevitável não pode mais ser adiada (o fim da história de amor), contrariando a inércia da realidade, na qual está presa. Daí surge também a vergonha de alguém que é obrigada a ver-se a si própria do exterior, na presença de outros, especialmente do seu amado, e essa vergonha é tão ou mais exacerbada por aquele plano expressar, melhor ou pior, os sentimentos de fuga que lhe vão na alma e por esses sentimentos serem agora novamente percebidos por Rita, com mais clareza. Por essa razão, quando Rita corre, experimentamos a terrível sensação de que o teatro é a realidade e de que a fraqueza é a força. Para além disso, esse plano de Rita a correr já se havia repetido ao início do filme ganhando agora um outro valor, o valor de uma memória; e, como numa memória falsa de algo que nunca poderia ter acontecido, cada vez que Paula Guedes arqueja em corrida, sente-se quase como se tivéssemos adormecido a ver um filme e os sons desse filme em que adormecemos fossem usados para representarmos para nós próprios, sob a tela do sono, os diversos espetáculos que ele nos veda, mas aos quais temos a ilusão de assistir.
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