O Ódio do Passageiro - LIGHT SLEEPER
Hoje de manhã, como todas as manhãs, fui ao Minipreço fazer as minhas compras do dia. Devo especificar que este hábito diário começou quando me apercebi da minha falta de controlo próprio para não comer tudo o que há de disponível no meu frigorífico. Como vivo sozinho, e não tenho que adaptar o meu ritmo ao de outra pessoa, decidi que o melhor para o meu corpo, e para a minha carteira, seria de todas as manhãs ir fazer as compras, e apenas comprar comida suficiente para o pequeno almoço, almoço e jantar do próprio dia... Esta rotina tem tido cada vez mais impacto na maneira em que vivo as coisas. Todas as manhãs, com estas idas ao supermercado, tenho que me confrontar a esta fraqueza que apenas outros gordos e viciados podem perceber: não ter controlo do que se mete no corpo, ou, para ser mais exato, não ter controlo.
Como estava a dizer então, fui ao Minipreço hoje de manhã, resmungão deste habito que sozinho me criei, ou que me foi destinado, e passei pelas pessoas que vejo praticamente todas as manhãs. Há os trabalhadores, preguiçosos e sem vontade nenhuma de fazer algo da vida, sempre vestidos com a farda do Minipreço, que nem dá para imaginá-los vestidos doutra maneira. Há os outros gordos, que infelizmente encontraram-se na mesma rotina que a minha, a fazer as compras todos os dias. Há os turistas, que observam o supermercado com fascinação/desgosto própria de um turista. A sujidade, a tecnologia velha, a pouca variedade de produtos. Observam com desprezo a loja (observam-me com desprezo). E finalmente, a mendiga cigana sempre sentada em frente à loja. Tão em frente que é preciso desviar-me só para poder sair. Cada vez que os vejo... cada vez que a vejo, cada vez que ela me pede dinheiro, cada vez que eu digo não, sinto algo que até começar a viver sozinho não sentia: ódio.
No outro dia, na Cinemateca, depois de ter visto com uns amigos O Couraçado Potemkine na sala vermelha, fiquei sozinho para ver a última sessão do dia: o Light Sleeper do Paul Schrader. Não surpreende eu ter ficado sozinho, visto que o filme acabou apenas por ser um triste lembrete de que o cinema já foi O Couraçado Potemkine, e que agora, pronto... sabe-se lá. Sendo um realizador que vejo pouco e que me interessa pouco, prefiro não desenvolver sobre o Schrader, que prefiro chamar de cinéfilo. E mesmo assim... Mas deixo na mesma este bitaite que li o outro dia sobre o Cat People do mesmo Schrader, que resume bem o que senti em relação ao Light Sleeper: « a diferença entre roteirismo, em que tudo se resolve na fala e na explicação do que se vê, e atmosfera, em que tudo se resolve no que a palavra não consegue explicar do que se vê, e se resolve mais ainda nos silêncios entre cada palavra ».
Voltando ao ódio, não visto por mim mas por Schrader. Se há uns momentos que se pode tirar dos filmes dele com algum sorriso na alma, são as ideias (e não a forma) desses filmes. Isto é natural, visto que o Schrader é um cinéfilo e não um pensador. E que o único ponto positivo em ver (sem pensar) muitos filmes, é conseguir, a partir de um certo numero de filmes vistos, distinguir ideias com potencial cinematográfico. Nisso, Schrader e os restantes realizadores/cinéfilos da geração dele, são aptos. Mas conseguem apenas identificar uma ideia em que o potencial já foi formalizado por outros antes (Schrader copia de Bresson, Spielberg de Ford, W.Anderson de Ophüls...), em vez de dar potencial a uma ideia que ainda não encontrou mensageiro. Mas pronto, não vale a pena estar a bater num peso morto...
Uma ideia em particular no filme do Schrader inspirou-me bastante, e fez-me refletir sobre a minha condição que expus acima. Essa ideia é, tal como no Taxi Driver (filme escrito por Schrader), a do exterior urbano visto pelo interior dum carro. De facto, começo apenas a perceber, com os meus recentes ressentimentos de ódio, e com os filmes que vejo, de onde nasce este ódio. E esta ideia, dum carro que navega pela sujidade e vulgaridade de Nova-Iorque, sem ter tempo de parar e perceber o porquê de tal sujidade e vulgaridade, e esse perceber que é o caminho para a empatia, é a ideia perfeita para demonstrar como é que o ódio nasce num personagem. Um homem que é condicionado a ver apenas o resultado (sujidade) e não a causa (x). Por isso ressente ódio, e não empatia.
Schrader não se apercebe, mas com esta ideia, ele faz um belo retrato do seu cinema, do cinema do seu tempo, e da televisão de todos os tempos, « em que tudo se resolve na fala e na explicação do que se vê » como diz o bitaite acima. Em que nos dizem o que pensar, em vez de o sugerir. Como Bresson o escreveu nas suas famosas notas: « Si une image, regardée à part, exprime nettement quelque chose, si elle comporte une interprétation, elle ne se transformera pas au contact d’autres images. Les autres images n’auront aucun pouvoir sur elle, et elle n’aura aucun pouvoir sur les autres images. Ni action, ni réaction. Elle est définitive et inutilisable dans le système du cinématographe. ». São estas imagens que um condutor de taxi (Taxi Driver) ou que um passageiro de limusine (Light Sleeper) vêm. Imagens que necessitam interpretação, interpretação que necessita contexto, contexto que não existe nestas imagens. Sem esse contexto, chega a especulação, e da especulação vem a evidencia. E qual é a evidencia que DeNiro ou Dafoe vêm fora do carro? Sujidade, nojo, delinquência em todo lado. O ódio é apenas a consequência natural destas imagens explicitas e não sugestivas. Estas são as imagens que a televisão sempre fez, e que o cinema se submete a fazer.
Infelizmente, além do que escrevi acima, ambos os filmes (Light Sleeper e Taxi Driver), tornam-se exatamente no que esta bela ideia do carro tenta combater. Filmes em que a imagem do ódio é tão concreta que até se começa a odiar o ódio... A partida está viciada.
Voltando ao ódio, visto por mim desta vez. Nunca me tinha dado ao « luxo » de odiar. Ter as rotinas feitas, como quando se é criança ou adolescente, permite descobrir, aprender, perceber. Não há espaço para odiar porque o ódio não existe quando as coisas se percebem, ou quando as coisas são tão grandes que nem valem a pena ser percebidas. Nenhuma criança de Nova-Iorque tenta perceber porque é que a cidade está suja. Nenhuma criança tem essa pretensão. É apenas na idade adulta, quando a expectativa de grandeza se confronta à desilusão da realidade, que o homem, sentimental e injustiçado, especula sobre o seu fim, resultando num ódio profundo pelo que o rodeia.

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