A Infância da Guerra - MAN HUNT
O filme começa logo com esta imagem: Hitler (pré-guerra) na nossa mira, pronto para ser morto pelos horrorosos crimes que há de cometer um dia. Sem perguntas, disparamos, e tornamo-nos em heróis, vingando um futuro possível. Ou evitando um futuro passado?
Por que razão Walter Pidgeon não disparou?
O que ele afirmava ser apenas um banal sporting stalk não era apenas isso. Nós testemunhámos, depois de ter disparado uma bala de festim, que de facto lhe permitiu saber que ele conseguia matar Hitler (objetivo inicial do seu jogo, apenas saber se era possível), Pidgeon apercebe-se do erro que ele pode estar a cometer em não concretizar esta possibilidade. Que se calhar ele deveria ir mais longe que a hipótese… e chegar ao acto, por mais irracional que este pareça naquele momento. Ele até carrega a sua arma com uma bala verdadeira. Mas toda esta hesitação deu tempo para que um dos guardas SS apanhe Pidgeon antes que ele possa disparar. O instinto não foi suficiente. Podemos imaginar que nunca o foi perante a frieza de Pidgeon.
Para Pidgeon, matar Hitler naquele momento teria sido um gesto sem razão, "cruel". Hitler nesta altura do filme (e da história) ainda era apenas um fantoche, sem história ou personalidade. Uma figura potencialmente perigosa/grande/poderosa? Sabe-se lá… especula-se.
Pidgeon há de viver algo que finalmente dê razão à ação que ele nunca chegou a concretizar? Aquele apertar do gatilho, que em tempos pareceu tão leve… mas tão pesado que ele se torna.
Lang, através de Pidgeon, haverá de encontrar a razão da guerra? Ou a impotência da razão?
A razão veio ter a Pidgeon em qual forma? Num par de olhos tristes, uma boina que esconde uns caracóis morenos, um alfinete em forma de seta… Ó maldito Cupido, porque disparas sobre nós, amantes? A nossa vontade de desaparecer deste mundo não chega? Enfim, de quem falo? De Joan Bennett, quem mais? Meio criança, meio adulta. Tanto independente como à procura de alguém em quem depender. Prostituta tímida e resistente temida. Haverá mensageiro mais belo que ela?
Mas estas palavras, ele só as pensa quando já é tarde demais. É o que dá quando se é um caçador que nunca caça… que ganha gozo apenas sabendo aquilo que é capaz de fazer, mas que nunca faz realmente.
Numa das cenas mais belas de sempre, Pidgeon e Bennett andam com os braços entrelaçados numa ponte londresa. Uma está a passear com o amante, um está a passear com a filha. Ele despede-se da filha. Ela, desejando ser desejada por aquele que ela deseja, pede-o um beijo. Sem dar tempo para ele responder, ela solta esta seta: « Why won’t you kiss me? I’m never going to see you again. ». Ele responde, como um pai a uma filha : « My dear, dear, child ». Ela inclina-se para o beijo, ele, outra vez sem razão para agir, hesita de novo, e ao ouvindo um policia aproximando-se, a sua hesitação, sem continuidade, passa a ser apenas uma recusa nos olhos dela. Cruel razão.
No fim, ambos andam para lados opostos, e, a meio, viram-se os dois. Ela vira-se para ter um último olhar, ele vira-se para ter o seu primeiro. Infelizmente, não haverão outros. Cobarde razão, nunca síncrono com o mundo.
« May you never lodge it in the wrong heart » dizia Pidgeon a Bennett, no momento em que lhe oferece o alfinete em forma de seta. Afinal de contas, a seta foi parar no coração de um nazi, que não é necessariamente o wrong heart, porque no mundo de Lang as setas acabam por não ser as de Cupido, feitas para lançar em quem nós amamos. As setas de Lang matam quem nos impede de amar.

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