Merlusse

Quando Merlusse regressa para cumprir o seu último turno, já depois de ter comprado as prendas para as crianças, mas antes de as ter entregue, dá uma volta pelo dormitório e observa aqueles pobres diabos que se deitam para dormir. Pagnol começa a cena com Merlusse centrado contra uma parede branca e, à medida que este vai avançando para a frente, a câmara arrasta-se para trás, revelando na metade direita do quadro os miúdos nas suas camas, sendo estes progressivamente ultrapassados e deixados para trás. No final deste único plano, o mestre dá meia volta para inspecionar as camas da fila da esquerda e é aqui que Pagnol corta para um plano subjectivo de Merlusse. O plano picado percorre a fila de camas da parte esquerda do dormitório e no final dá meia volta para regressar à fila da direita. A câmara detém-se inesperadamente na conversa de duas crianças. Uma delas mostra uma faca à outra: “Olha para isto. Tenho-a guardada debaixo da almofada. Se ele tentar aterrorizar-me ou a qualquer outro hoje à noite, arranco-lhe o outro olho à facada!”. Por um lado, é-nos dado a entender que Merlusse se encontra à beira da cama daquelas crianças, por outro é-nos difícil acreditar que elas teriam propriedade para dizer estas palavras sabendo que o professor se encontrava por perto e as conseguiria ouvir distintamente. Para além disso, caso o professor os pudesse ouvir a falar, tê-los-ia repreendido e ordenado que parassem imediatamente com a conversa, como é costume dele. Ora, nada disto acontece e as perguntas que lanço são as seguintes: Como pode o professor ver isto? Ou como se deu a operação que nos fez sair deste plano subjectivo, se é que saímos? Pode parecer que estou apenas a tentar implicar com este detalhe insignificante sem razão justificável. É possível, inclusive, que seja defeito meu. Se filmasse esta cena seria capaz de ter cortado o plano subjectivo antes de me aproximar da conversa entre os dois rapazes, porque não seria congruente com o movimento anterior. Mas a verdade é que às vezes, sem aquilo que julgamos ser um movimento em falso na totalidade da obra de arte, esta parece tão insuportável que se acaba por detestá-la. Todavia, não será o erro uma das cores presentes nas paletas dos grandes mestres, e não terá este sido sistematicamente misturado com as cores primárias, o verde, o vermelho e o azul, para criar aquilo que vulgarmente se diz ser o novo, o nunca antes visto? Não será apenas nesses momentos que pressentimos que é apenas lógico extirpar o que sabemos do que acabamos de sentir dissolvendo o conjunto de raciocínios a que chamamos visão? As perguntas “como pôde o professor ver isto?” e “como se deu a operação que nos fez sair deste plano subjectivo?” são na verdade perguntas sem resposta perante a magnificência do estilo.


É talvez uma grande coincidência o aviso que nos é feito logo ao início deste filme num cartão que diz: “Este filme apresenta algumas imperfeições de som e imagem, pois à época em que foi feito, o seu realizador, Marcel Pagnol, não tinha à sua disposição os meios técnicos dos dias de hoje”. Não pensem contudo, pela minha anotação, que estou a incorrer na parvoíce de achar que este cartão se refere à inverossimilhança que descrevi acima. A cena parece planeada ao detalhe e, portanto, o que eu julgo que aconteceu é que Pagnol descobriu que nesta irrealidade, neste erro, havia um potencial secreto de tristeza infinita, cujo poder consistia em ter-nos de súbito completamente paralisados; essa mesma tristeza que nos ataca sem aviso perante a crueldade de uma conversa que já não temos forças para reprimir.




P.S. É realmente um prazer, neste modesto filme, ser dado a ver coisas tão simples como a destruição de uma fila. Curiosamente, é no espaço no qual eles são postos a dormir, que a ordem cai por terra e a fila se desmantela, como um rio a desaguar na sua foz, ou como uma flor que elegantemente desponta.






 

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