Conto de Inverno

Félicie é uma esteticista e, como tal, trata daquilo que é belo. Os amantes que rejeita são aqueles que não reúnem as condições estéticas suficientes para que se possa dar o amor. A primeira cena do filme de Rohmer configura a imagem mental que ela tem desse belo a que aspira, desse paraíso perdido que é o zénite das aspirações estéticas desta mulher e que consiste, a pequena cena, em momentos aleatórios do verão que passou com Charles, o único homem que verdadeiramente amou e do qual tem uma filha. Tendo o casal sido separado por acidente e as perspectivas de um reencontro serem diminutas, Charles leva, cinco anos depois desse verão trágico, uma existência de fantasma no frio universo de Félicie e Elisa. Cinco anos depois de o sol se ter extinto e de ter tomado controlo o nevoeiro, Félicie desloca-se de casa para a paragem de autocarro, de uma linha do metro para outra, do mercado de inverno para o trabalho. Também antes Charles acompanhava Félicie da praia para o restaurante, do restaurante para o barco e de novo para a praia, mas desta feita a música calou-se e a alegria foi extirpada da vida. A mesma banalidade dos eventos do quotidiano, o mesmo ritmo, mas sem toda a magia inicial e agora com toda a brutalidade do dia-a-dia, dos restos de uma espera interminável que transformam a vida numa sucessão de dias e os dias num longo inverno em que se anseia pelo longínquo e inconcebível verão. A amante que acossamos, que pressentimos estar prestes a regressar, é na verdade a própria vida, à qual momentaneamente dissemos que não num momento de dúvida, ou pelo menos assim falam os descrentes.


O momento chave deste filme, do qual tudo emana, é sem dúvida aquele em que, depois de Elise persuadir a mãe a entrar na catedral de Nevers, Félicie senta-se no escano e tem uma revelação que a faz partir de Nevers e dedicar a sua vida a esperar por Charles. Pouco depois de ter esta revelação, diz a Max que tem de partir e explica-lhe que foi um erro ter vindo em primeiro lugar. Enquanto o tenta convencer que agora vê claramente, segura nas mãos uma bola vermelha de brincar, um mundo. Mais tarde virá a repetição desse momento de revelação, por ora sob a forma da confissão: Félicie confessa a Loic porque regressou de Nevers, quais são os seus planos, o que lhe foi revelado. Loic encarna a figura do cura, de uma espécie de padre do seminário com o seu blazer e gola alta (Félicie chega a dizer que noutra vida ele teria sido o seu irmão, em francês frère, frade); um homem teórico que não acredita realmente na revelação, que acha que toda a resolução de Félicie de esperar por Charles é idiótica até que ela pronuncia algo que lhe soa a Pascal, aí mesmo começa a acreditar nela. Este momento que os dois partilham no carro é belíssimo e a découpage da cena transforma aquele viator num verdadeiro confessionário. No entanto, esta é uma confissão alegre, livre da culpa e da penitência inerentes à Páscoa. Há uma ambiguidade interessante em todo este movimento - Espera-se a ressurreição do messias, neste caso Charles, que tem claras parecenças físicas com Jesus Cristo, e Félicie decide esperar precisamente na época Natalícia e não na Pascal. O seu discurso oferece pistas: “Se, tal como tu dizes, Loic, e eu acredito, as nossas almas viverão eternamente, porque é que achas que elas não tiveram já uma vida anterior, uma vida da qual não nos lembramos?”. 


Compreendemos que Félicie é na verdade uma grande encenadora. Ela põe em movimento sentimentos do seu coração, dá-lhes expressão concreta, para a partir dessa experiência poder deduzir uma espécie de conduta ou ética. É como se Félicie forçasse a sua própria revelação testando as suas hipóteses no grande teatro da vida, enveredando por caminhos sem saída para poder voltar ao caminho inicial de onde se tinha perdido, para se assegurar de que aquele era, com toda a certeza, o caminho da fé, da qual ela precisa para continuar a viver na graça do seu amor perdido, mesmo que para isso tenha de sofrer. 


Ela não espera por um milagre, no sentido em que o verdadeiro milagre é a revelação de uma ética, ela força-o. Como já disse, esta boa-nova aparece-lhe quando se senta na igreja e reflete sobre a sua experiência naquela cidade. Não é por acaso que a igreja é o último sítio que ela visita em Nevers, como se já tivesse visto tudo.


O Natal é, neste sentido, muito mais aquilo que se diz que a própria Páscoa é. O Natal é, por fim, essa promessa de uma nova vida, ou da possibilidade desta, enquanto que a Páscoa apresenta-se como uma resolução demasiado simples e até tosca para toda a questão da possibilidade da vida que nos é colocada no Natal. Dentro da ideia cristã, a ressurreição de Cristo é talvez uma história tão mal desenhada quanto o reencontro de Félicie com Charles no autocarro. Porque a confirmação da nossa fé erradica o mistério que a originou e, portanto, o reencontro não é mais do que aquilo que é previsto, tanto no filme como na vida. É também o que nos desvia dessa confissão alegre que é o Natal, da possibilidade de viver o Evangelho, e no entanto, talvez o único resultado plausível de toda a fé. Mas faço das palavras de Félicie aquando da sua conversa com Loic no carro as minhas: não me agradam as coisas plausíveis.


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