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A mostrar mensagens de janeiro, 2026

Várias histórias - WICHITA

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1. Aqui está uma passagem de um texto escrito por um amigo meu -   «  São terríveis as circunstâncias e é terrível esse mundo interior que faz com que apenas os pensamentos, opiniões e juízos de valor que não são nossos, possam transpirar para o mundo exterior. Mais ainda quando julgamos ter tirado férias desse eu que nos repugna, desse eu que vive em sociedade e cujas falas embaraçosas foram já repetidas, nas cabeças de todos aqueles que as ouviram, pelo menos uma vez e no máximo infinitas vezes.  »   Há uns meses passeava com ele pela sua cidade natal. Recordo-me tê-lo questionado excessivamente sobre o seu passado, com uma forte curiosidade provocada pela sua atitude habitualmente reservada perante este tema. Estávamos a andar por estas ruas que me eram estranhas, e eu via no olhar dele, em cada esquina que ele reconhecia, memórias a perturbarem-lhe o passeio. Pensei que a presença de alguém ausente do seu passado, que não tivesse visto ou ouvido de outros olh...

A Linguagem Cinematográfica - YELLA

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  I. A responsabilidade que um realizador ressente perante a escolha narrativa de um filme revolve em torno do facto de que ele pensa saber mais do que o espectador.   Seria, então, necessário que a informação que o artista pretende comunicar tenha algum tempo de maturação - algum tempo para a pretensão do seu autor ser distilada.   A maturação de que falo é aquela que Paul Cézanne mencionava nos seus diálogos com Joachim Gasquet: « O artista não é nada mais do que um receptáculo de sensações, um cérebro, um gravador ». Segundo Cézanne, o pintor, aceitando o seu papel de modesto recetor e imitador da natureza, sem grandes ambições de profeta, permitirá, dado o longo caminho que vai da realidade infinita à obra finita - atravessando as particularidades da sua vista, do seu ponto de vista (literal, não ideológico), do seu cérebro, da sua cultura, dos seus pincéis, das suas tintas, da sua técnica de pintar, da sua tela - criar uma obra não só verdadeira peran...

Wagon Master

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A Catedral dos abandonados plantada no meio do deserto... Esta palavra deserto vem da latina deserere , que significa deixar, desamparar, abandonar; despovoado é o terreno falto de povoação, inabitado; solitário vem de solus , só, e esta última expressão usa-se tanto falando das pessoas, dos povos, como dos países. Daqui resulta que o país deserto se acha abandonado, sem cultura, nem produção alguma; o despovoado sem habitações nem habitantes, o solitário não frequentado, e onde o que por ele transita se acha só, ninguém se lhe opõe, ninguém o incomoda, goza de si.  Em Wagon Master, os Mórmons encontram-se com os Navajos e depois com os Ladrões; só a lei não pertence ao deserto e é expulsa deste. Ford dá um novo sentido à palavra deserto - lugar de florescimento da cultura de uma comunidade errante, onde os povos solitários se encontram.  Eis que no final expectante, a eventual descoberta da terra prometida ao povo errante permanece, por alguma razão (qual será?), uma incógnit...