Inerte Eterno





Recentemente deparei-me com a expressão « sentinelas de um horizonte eterno », que Chris Marker usava para descrever as mulheres cabo-verdianas em Sans Soleil. Elas que pacientavam num porto da Ilha do Fogo. À espera do quê? Outrora, de serem triadas pelos colonizadores portugueses. Agora (ou em 1983, estreia do filme) pelo regresso dos maridos pescadores. Finalmente, o que mudou? Sempre aguardam que o eterno passe.


Elle est retrouvée.

Quoi? - L’Eternité.

C’est la mer allée

Avec le soleil.

Ame sentinelle,

Murmurons l’aveu

De la nuit si nulle

Et du jour en feu.


Des humains suffrages

Des communs élans

Lá tu te dégages

Et voles selon


Puisque de vous seules,

Braises de satin,

Le devoir s’exhale

Sans qu’on dise: enfin.


Là pas d’espérance,

Nul orientur.

Science avec patience,

Le supplice est sûr.


Elle est retrouvée.

Quoi? - L’Eternité.

C’est la mer allée

Avec le soleil.


« Eterno », palavra impotente.


Que diferenças têm o eterno e o fugaz? 

Serão estas mais dignas que as suas semelhanças? 

Um acaba e o outro não, é isso? 

Será essa a avassaladora distância?  

E no momento da corrida? Da vida vivida, não pensada? 

Quando o fugaz desiste, o eterno persiste… mas à espera do quê? Senão de um Finivisti!

Um vai para lá… o outro fica por cá… mas enquanto correm, o que é que varia? Se ambos vivem apenas essa tal corrida?

O que quer dizer então, "eterno"? Prova de uma angustia de outros tempos? De novos tempos? A resposta da linguagem face ao medo do tempo?

Como desmistificar esta palavra? Como resgatá-la deste nevoeiro?

Marker já lhe deu uma mãozinha com a expressão acima, sinto eu. Porque "eterno" só, não chega para o sentimento de umas mulheres que aguardam uns maridos. Agora, « sentinelas de um horizonte eterno »… Quem diria que para dar vida a tal palavra, era preciso atribui-la um olhar exterior. Olhar imóvel, condicionado à sua prisão. Ela só, capaz de alargar os horizontes do pensamento.

Digam-me então um sentimento mais infinito? Do que uma sentinela (ou uma mulher cabo-verdiana), plantada no meio do vasto oceano (ou num porto da Ilha do Fogo), observando (ou esperando), o eterno horizonte (ou o saudoso marido)? 

Porque dessa imaginação, eu não partilho.


Inerte Eterno… « C’est la mer allée - Avec le soleil. ».


Isto veio-me à cabeça um dia, não me lembro bem onde me encontrava… Recordo as luzes apagadas… umas caras iluminadas… uns longos cotovelos contra os meus… umas pernas traquinas juntas às minhas… Lembro-me de uma árvore à minha frente, estendida numa grande tela que em tempos fora branca, mas que entretanto, com receio que os olhos se aborrecessem… ou divagassem… as cores invadiram.

O meu olhar avançou, mas o meu corpo não. Que estranha sensação. A árvore cada vez maior… E eu ali, sentado… já me lembro… numa sala de cinema, o meu corpo inerte, tive a impressão de ver o tempo mexer-se. 

Olhei para o meu lado, para as pernas traquinas de uma desconhecida, e pensei « Coitadas, como poderiam elas saber que o suposto é mesmo ficarem paradas? E não seguirem a imagem em movimento, para lá da tela. Para o eterno horizonte? »

As minhas pernas, espécies de sentinelas. Elas já não tremem… pena minha.









 

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