Estás com a cara suja, eu mato-te


Às vezes olho para as coisas sem perceber muita coisa mas continuo a olhar mas não para perceber só porque não consigo deixar de olhar durante muito tempo e depois esqueço-me das horas e vou sempre a correr mas não porque tenho pressa, eu gosto mesmo é de correr. Depois pego numas pedras quaisquer. Estas pedras são boas para pôr na lareira, mesmo que não queimem. Ele disse que eu sou egoísta mas eu não sou egoísta. Ele é que é. Ele pôs aquelas flores na chávena da avó e agora como é que ela vai aquecer as mãos? A árvore não tem pai e mesmo assim é muito alta. Porque é que ele se preocupa tanto com o pai em vez de ir subir às árvores. Há coisas melhores para fazer. O Helmuth ensinou-me a dizer adeus em alemão mas isso não interessa para nada a não ser para dizer adeus aos alemães mas aqui não há alemães então para que é que interessa isso? Depois fui ver a avó outra vez e perguntei-lhe coisas mas ela estava a dormir muito e não acordava para me responder, só o idiota do meu irmão é que me respondia e ele era muito simpático por responder a todas as minhas perguntas mas as respostas que ele me dava não respondiam às minhas perguntas então não adiantava para nada. Lá fui eu outra vez buscar o meu gato que também não tem pai e brinquei com ele. Eu acho que ele não tem pai porque ele não quer saber de mais nada a não ser correr de mim e atirar-se às ervas de vez em quando então se ele tivesse pai talvez fosse a mesma coisa que é agora e ele continuasse a atirar-se às ervas e a fugir. Eu pensava que tudo era meu mas nós não tínhamos muitas coisas para comer então tirei um pão do saco do padeiro que estava parado no carro das entregas do pão e ele viu-me e deu-me uma bofetada então não tirei mais pão de lado nenhum mesmo quando tinha muita fome. Nas árvores podes tirar o que quiseres porque elas não se importam e continuam ali a abanar ao vento sem fazer nada e no campo onde o Helmuth trabalha também podes tirar tudo o que quiseres pedras relva e mais coisas. Nós brincamos a muitas coisas e são tudo coisas nossas porque nós brincamos com elas. E então eu fui ter outra vez com o meu irmão e ele disse-me que sabia quem era o meu pai mas eu não quis muito saber e ignorei-o. Então um homem deu-me um penny e eu tirei-o da mão dele e fugi sem dizer nada. Era o meu pai. Depois fui bater à porta de casa dele quando o vi chegar do trabalho mas ninguém abria a porta e uma velha gritava muito de lá de dentro então fui-me embora. O comboio passa sempre depois de algumas horas e lança muito fumo e o meu irmão gosta do fumo e fica a observá-lo e diz-me que são gaivotas líquidas que estão a sair da chaminé do comboio mas eu nunca acreditei nisso. Ele gosta de ir atrás do comboio e uma vez desapareceu no fumo e eu pensei que o comboio o tinha levado mas ele afinal estava ali e só o consegui ver quando o fumo desapareceu. Há um rapaz levado da breca que apanha sempre o comboio às escondidas do revisor e põe-se atrás de uma carruagem e vai até Carmarthen e vai brincar com as raparigas de lá ele é mais velho e diz que as raparigas gostam muito dele mas eu não gosto de raparigas nem gosto dele então fico só à espera que o meu irmão acabe de falar com ele para irmos brincar às apanhadas. Depois o meu irmão recebeu um canário do meu pai e eu achava muito estranho aquela ave pequenina então abri a gaiola para meter lá a cabeça e assustá-lo mas ele lançou-se contra mim com uma grande fúria e eu caí assustado e ele escapou-se. Então o meu irmão matou o meu gato com uma pedra e eu fiquei muito triste e a minha avó chorou por o meu irmão ser tão mau e quando acabou de chorar já não se ouvia nada e a avó não respondia como sempre então eu fui-me embora como aquele outro rapaz e fui de comboio e as gaivotas líquidas não eram gaivotas líquidas era só fumo e se alguém me apanhasse ali atirava-me borda fora e eu sabia tudo isso agora que o Helmuth se tinha ido embora e já não havia nem avó nem Helmuth nem gato então eu percebi tudo e fui-me embora.



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