O Big-Bang e Jesse James - THE TRUE STORY OF JESSE JAMES






Gavin Lambert, critico da Sight & Sound e colaborador de N.Ray: 

- Quando aceitou rodar o que se viria a chamar THE TRUE STORY OF JESSE JAMES, Ray não tinha qualquer intenção de fazer o filme que hoje existe. Queria tratar dramaticamente o paralelo entre o jovem bandido, produto da Guerra da Secessão e o delinquente juvenil de
hoje.


Ontem, tomei conhecimento, através de uma reportagem no YouTube, da CERN (Conseil Européen pour la Recherche Nucléaire). Uma estrutura circular subterrânea de 30 quilómetros de circunferência na fronteira franco-suíça, onde cientistas propulsam partículas a velocidades próximas da velocidade da luz umas contra as outras, para eventualmente chocarem entre elas, criando o que se chama uma colisão de partículas. Isto tudo para recriar e estudar, a uma escala consideravelmente mais reduzida, a colisão de partículas que se acredita no mundo cientifico ter criado o Universo, o Big-Bang (entre outras coisas). Aqui, a questão cientifica (e igualmente cinemática, percebi eu depois) que conta é esta do Big-Bang. A colisão que criou a energia de toda a história, energia que continua a se manifestar em tudo o que se vê e que não se vê. Nestas letras, por exemplo, a serem tocadas por mim, pelos meus dedos, consumindo a energia do meu corpo, vinda da Terra, do Big-Bang. Vem tudo, de alguma forma, ainda inconcebível cientificamente, desse momento só.


A seguir, vi o The True Story of Jesse James. Até parece destino pelo que vou escrever, ter sido este o filme que vi após a reportagem sobre a CERN. Será provavelmente a minha cabeça a fazer certas ligações. Ou então é o cinema, ele próprio ligado por natureza (montagem) a este conceito de colisão-energia, causa-efeito. Fazendo com que qualquer filme que eu tivesse visto a seguir a esta reportagem me teria feito pensar no Big-Bang.

Nunca me tinha vindo à cabeça esta questão energética tão fundamental no cinema. Nunca me foi tão clara a energia criada por um momento determinante que neste filme. Energia avassaladora e irreversível, causando uma reação em cadeia determinando o destino de tal e tal personagem e de quem o rodeia. 

Henry King, no seu filme Jesse James em 1939, e Fritz Lang na sequela The Return of Frank James em 1940, fizeram do famoso outlaw um Robin Hood. Um outlaw que certo, por momentos se deixou levar por sentimentos vingativos, mas que respeitou quase sempre a sua imagem de herói do povo. Por outras palavras, King e Lang seguiram a mitologia heróica clássica de Jesse James. Nicholas Ray, cineasta dos jovens (como Lambert escreveu acima), fez de Jesse James um martírio. Martírio não dos progressos capitalistas como nos filmes de King e Lang, mas sim dos outros (principalmente dos mais velhos), e das suas ações. No filme de Ray, o outro é sempre culpado, e é mesmo! Neste caso foi o vizinho que o traiu e que o chicoteou, tornando sucessivamente Jesse James num futuro culpado, pela vingança que lhe foi motivada e destinada. Mais uma vez a reação em cadeia de que se pensa tanto em ciência nuclear, e de que se sente tanto no cinema. 

Se o irmão Frank James não tem o mesmo caráter vingativo de Jesse, é porque ele não estava presente quando este foi chicoteado. Disto, o cinema é capaz. Por uma informação dada ao espectador e não ao personagem, o comportamento de Frank James, que sem o contexto teria sido o mais respeitável entre os dois, com este bocado de informação, torna-o banal, cobarde quase, tornando ao mesmo tempo os comportamentos de Jesse James justos e não apenas delinquentes.

Einstein, se fosse realizador teria feito este filme. Um filme que podia-se chamar E=mc^2. Energia=Massa, tal como quando a energia do chicote, cria em Jesse James e no espectador, a matéria necessária para ir roubar bancos, comboios. Tal como com os jovens delinquentes de hoje, de que Ray sempre quis tanto falar. Eles próprios motivados por energias cada vez mais distantes e imperceptíveis, a dedicarem a vida à delinquência. Como uma vingança perpétua, passando de geração em geração, perdendo propósito e razão. Mas há sempre um ponto de partida. Isso é o que quer mostrar Ray. A nascença da delinquência. O ódio que se tem pelos jovens delinquentes vem da aparente falta de motivo nas ações destes jovens. Ray mostra aqui que nenhum ódio vem do nada. Há sempre algures uma colisão de partículas que dá faísca, que se torna em fogo. Que neste caso, podia apenas parar com amor e empatia.

Porque é que o amor e a empatia não foi suficiente? Aqui está a tragédia do filme. E a sua grandeza. Por de trás disto tudo a acontecer, ou seja, a narrativa de Jesse James, indo do chicote, aos crimes e às fugas, aconteceu um outro Big-Bang. Que penso eu, nem se pode chamar de Big-Bang. Trata-se de outra colisão, que no nosso mundo cientifico, tal como no filme, ainda não foi descoberta. Algo de misterioso, obscuro, e com a potência energética capaz de reverter qualquer acontecimento causado pelo primeiro Big-Bang. Esta segunda colisão é quando o padre engana-se chamando Robert Ford de « Charlie ». Percebemos no final do filme, não quando Ford mata James, mas quando ele sai da casa, pistola na mão, gritando alegremente « I, Robert Ford, just killed Jesse James! », que esta morte, está ligada a este momento, pequeno na aparência, mas avassalador na sua consequência. Robert Ford passou o filme todo a ouvir o nome de Jesse James, enquanto o que ele queria ouvir era o nome de Robert Ford. Quando o padre trata-o de « Charlie », parece ser a ultima gota (então que é sobretudo a prova de muitas outras), criando a reação em cadeia dentro de Ford que apenas pararia no túmulo de Jesse James, do nome, não da pessoa.

Gostam de chamar Ray de « sentimentalista », mas neste filme ele provou respeitar a frieza do Universo. Frieza que neste filme é a base de qualquer emoção, tornando os acontecimentos inevitáveis, e transformando qualquer esperança dos personagens em desilusão, porque realmente no fim, percebe-se que não há nenhum controlo. A energia, por quão escondida que esteja, dita a história.


A seguir ao filme, lendo a folha de sala de João Bénard da Costa, aprendi sobre o massacre ao qual este filme foi sujeito na mesa de montagem. Não é uma grande surpresa, porque onde o filme brilha nas suas cenas individuais, ele fica um pouco fraco em certas decisões de montagem e estrutura. Mas felizmente, sinto que a versão que Nicholas Ray pretendia, não está completamente perdida. Vestígios dela são perceptíveis em cada cena. Prova do génio de Ray, que nunca deixaria, num mundo em que o dinheiro manda, que uma mudança estrutural no filme dele tire todo o seu propósito. Na folha de Bénard da Costa, percebemos que o que irritou mais Ray foram os flashbacks. Ray queria fazer um filme completamente diferente, em que passávamos do presente ao passado, sem qualquer aviso ou contexto. Isto fez-me logo pensar na primeira cena do filme em que começamos In Medias Res, no último assalto do James Gang no Minnesota. Esta cena é todo o filme que Ray pretendia. Não percebemos quem morre e quem mata, quem é Jesse James e quem é o banqueiro. Apenas vemos e ouvimos tiros, cavalos, pessoas a caírem, notas do banco a voarem… Não se percebe quem é quem ou o porquê do quê. Apenas pura energia demonstrada, sem colisão inicial aparente. O nome de Jesse James sem a cara. Um filme onde as causas e os efeitos não se ligam diretamente, apenas se cruzam, tal como nos olhos dos jovens delinquentes de hoje, confusos das origens das suas emoções.

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