Um gaulês não luta?
Se me identifico com Évariste é porque comungamos dos mesmos problemas. A matemática é, à semelhança do cinema, uma forma de organizar o mundo em pequenas equações (cenas) cuja cumplicidade com a próxima equação deverá revelar uma estrutura superior, capaz de aguentar tremores de terra e suprir a presença da abjeção, dando azo ao sublime universo da resolução, da descoberta, enfim, da criação. É esta que promove a revolução de verdade, a perigosa e doce revolução que, de acordo com a terceira lei de Newton, atrai inelutavelmente o espírito reacionário. Não deveremos destarte, esperar um forte abraço de seja quem for; deveremos antes esperar uma sétima sombra, um profundo temor pela vida, que nos fará cortar toda e qualquer relação com o mundo exterior e afastar-nos-á de tudo o que possa comprometer a segurança da nossa revelação. Porque que nos haveríamos de abandonar a um mar de dúvidas? Será possível que nos entreguemos como Évariste Galois? Acreditaremos a cada instante no Bom-Deus? Atiraremos tudo ao nada e esperaremos condignamente pelos nossos leitores por-vir? Esses serão os rebentos magníficos, plenos de curiosidade pueril, que por serem novos e ignorarem as querelas do passado, cuidarão muito melhor dessas terríveis palavras desesperadas que me foram atingir no coração - ≪O leitor demonstrará por ele mesmo, eu não tenho tempo.≫
Évariste Galois é o rapaz a quem os ventos da inteligência decidiram bafejar e a quem não falta ≪um pouco de força de espírito, um pouco de imaginação!≫. A meio da duração do filme, conta-nos em off um narrador como fora até agora triste a vida que Évariste Galois levou, nunca saindo daquela mesa enquadrada naquelas quatro paredes. Todavia, a arte de viver é forte e inteiramente propriedade de Évariste pois em nenhum momento cede ele à falta de romantismo que existe no mundo à sua volta, em nenhum momento cede ele à censura ou à fraqueza dos outros mortais. Será a ≪Europa da Cultura≫, como dizia Godard, que ultimamente apaga esta mente apaixonada, será ela, a Europa, que ≪organiza a morte da arte de viver, que ainda floresce≫. Uma morte que é enquadrada teatralmente, no sentido em que tem de ser atestada, carimbada pelas forças superiores. A mise-en-scène parece igualmente coadunar todos estes elementos em ambas as provocações do filme. Na primeira, enquadrando os espectadores do duelo atrás da ação, apenas a ver, intervindo só quando o pano se incendeia, não vá a companhia inteira pegar fogo; e o alvo sempre como referência no fundo mais longínquo, como uma lembrança do inevitável poder da atração entre duas forças que chocam. No segundo, quando é ainda não é claro para o espectador se o duelo será ou não viciado, a câmara coloca os juízes do encontro em primeiro plano e os dois rivais em segundo, procedendo, no primeiro plano geral da cena, a fazer uma panorâmica horizontal para a direita, onde se encontra o adversário de Évariste Galois, de certa forma dando a impressão de que os juízes favorecem este segundo participante. E por aí adiante…
É preciso enunciar aqui também a máxima de Astruc que se aplica perfeitamente a este filme como nunca mais vi em nenhum outro. Da imagem à ideia, assim é a tal máxima. Em todos os planos se sente a força da ideia, em todos os planos ouço ecoar a frase que Galois escreveu no seu caderno momentos antes da sua morte. Por exemplo, naquele plano em que a porta do quarto de Évariste se abre lentamente, iluminando paulatinamente e num feixe de luz uniforme as diferentes partes do quarto de Galois: a parede, o chão da entrada, as escadas e, por fim, o próprio sujeito pensador. Esta porta que se move por si só, sobrenatural, marca a hora da despedida, o tempo acaba. Porém brilha uma vez mais a luz sobre Évariste Galois - ≪E pur si muove!≫. É uma ideia que se torna clara no nosso espírito, tão clara que é impossível ignorá-la, e que só a força da própria imagem poderia ter produzido uma tão forte.
A câmara que no final do filme se distrai do corpo caído nas ervas e passeia até ao burguês, que por sua vez a carroça leva por entre a floresta, é a mesma câmara que, segundos depois, se arrasta de novo até esse corpo estendido naquele magnífico campo. Este último movimento de câmara, o regresso ao cadáver de Èvariste, acontece no preciso momento em que o narrador, que havia já confirmado, por volta daquelas horas sombrias em que Èvariste se atarefava a demonstrar ≪o problema≫, que este jovem teria ≪todo o tempo do mundo≫, nos demonstra por ora, como numa equação simples de primeiro grau, de que forma se tornou Èvariste imortal. Na hora última em que Galois se precipita para o chão, abraçando a terra como uma mãe moribunda abraçaria o filho que regressa a casa para a ver uma última vez, une-se por fim e para toda a eternidade, o criador à sua criação - os Campos de Galois, os campos verdejantes de erva que serão esses tais ≪campos com um número finito de elementos≫. Eis que a força da imagem nos conduzirá inevitavelmente à força da ideia, se esta existir.
O final deste filme só poderá ser demonstrado pelo espectador do jeito que mais lhe aprouver e, para que as últimas palavras escritas de Évariste não tenham sido em vão, é indispensável uma longa reflexão. Digo isto porque o que vemos é incerto, a perspectiva é incomum e a ação parece deslocar-se até nós como que por detrás de uma névoa, sem consequência ou antecedência aparente. Um homem morto que infatigavelmente passeia por um campo verdejante - sublime. A carroça a entrar a meio do plano lança o pedido de socorro, rapidamente revela-se-nos a pistola escondida e, segundos depois, a Galois. Ele chega até nós como Jesus chegou a Tomé, mas aqui parece combinar a ação dos dois (Jesus que se apresenta com as feridas abertas e Tomé que por lá enfia a mão), sendo esta já um ademane da descrença consumada. A mão, ou melhor, as mãos, deslocam-se do ventre para a cara, num gesto da mais profunda imaculabilidade. O espectador terá de demonstrar. O que não terá visto o espectador que viu Évariste, o que verá ele que Évariste não viu e, mais ainda, o que viu o espectador que Évariste viu? Eis que o espectador terá de ≪explicar uma série de problemas que à primeira vista nada têm a ver com as equações≫. Poderá ele ter visto um mártir? Um homem que se nega a lutar perante um confronto final? Ou será apenas o inverso da parábola do bom samaritano, na qual não há amparo para os homens mas antes uma bala nas carnes? Quiçá Évariste, no seu momento final, tenha ouvido no coração todos os sons do verão e, olhando em frente, visto o manto de veludo que cobre todos os verdes prados. Ou, quem sabe, terá Galois talvez vislumbrado o fundo do cano do revólver, onde a escuridão revolvia em turbilhões e onde se alojavam bandas de melros atinentes àquela metade informe do medo, por ora conjurada em penas; e que de lá desembestados num voo triangular e negro para extinção do sol, ressurgiriam num lampejo para lhe morder as mãos e queimar os olhos até ao crânio. Eis que o pavoroso horror lhe beija a retina. Eis que… Eis nada.
Comentários
Enviar um comentário